“ Este extraordinário movimento antijudaico, esta inacreditável ressurreição das cóleras piedosas do século XVI é vigiada com tanto mais interesse em Inglaterra quanto aqui, como na Alemanha, os judeus abundam, influindo na opinião pelos jornais que possuem (entre outros o Daily Telegraph, um dos mais importantes do reino), dominando o comércio pelas suas casas bancárias e, em certos momentos mesmo, governando o Estado pelo grande homem da sua raça, o seu profeta maior, o próprio Lord Beaconsfield”.
“Mas que diremos do movimento na Alemanha?
Que em 1880, na sábia e tolerante Alemanha, depois de Hegel, de Kant e de Schopenhauer, com os professores Strauss e Hartmann, vivos e trabalhando, se recomece uma campanha contra o judeu, o matador de Jesus, como se o imperador Maximihiano estivesse ainda, do seu acampamento de Pádua, decretando a destruição da lei rabínica e ainda pregasse em Colónia o furioso Grão de Pimenta, geral dos dominicanos –, é facto para ficar de boca aberta todo um longo dia de Verão.
Porque enfim, sob formas civilizadas e constitucionais (petições, meetings, artigos de revista, panfletos, interpelações), é realmente a uma perseguição de judeus que vamos assistir, das boas, das antigas, das manuelinas, quando se deitavam à mesma fogueira os livros do rabino e o próprio rabino, exterminando assim economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.
E é curioso e edificante espectáculo ver o venerável professor Virchow, erguendo-se no parlamento alemão, a defender os judeus, a sabedoria dos livros hebraicos, as sinagogas, asilo do pensamento durante os tempos bárbaros – exactamente como o ilustre legista Roenchlin os defendia nas perseguições que fecharam o século XV!
Mas o mais extraordinário ainda é a atitude do Governo alemão: interpelado, forçado a dar a opinião oficial, a opinião de Estado sobre este rancor obsoleto e repentino da Alemanha contra o judeu, o Governo declara apenas com lábio escasso e seco «que não tenciona parara alterar a legislação relativamente aos israelitas».
Não faltaria, com efeito, mais que ver os ministros do império, filósofos e professores, decretando, a D. Manuel, a expulsão dos judeus, ou restringindo-lhes a liberdade civil até os isolar em vielas escuras, fechadas por correntes de ferro, como nas judiarias do gueto.
Mas uma tal declaração não é menos ameaçadora.
O Estado dá a entender apenas que a perseguição não há-de partir da sua iniciativa: não tem porém uma palavra para condenar este estranho movimento anti-semítico, que em muitos pontos é presentemente organizado pelas suas próprias autoridades.
Deixa a colónia judaica em presença da irritação da grossa população germânica — e lava simplesmente as suas mãos ministeriais na bacia de Pôncio Pilatos.
Não afirma sequer que há-de fazer respeitar as leis que protegem o judeu, cidadão do império; tem apenas a vaga tenção, vaga como a nuvem da manhã, de as não alterar por ora!
O resultado disto é que numa nação em que a sociedade conservadora forma como um largo batalhão, pensando o que lhe manda a «ordem do dia» e marchando em disciplina, à voz do coronel – cada bom alemão, cada patriota, vai imediatamente concluir desta linguagem ambígua do Governo que, se a corte, o estado-maior, os feld-marechais, o senhor de Bismarck, todo esse mundo venerado e obedecido não vêem o ódio ao judeu com entusiasmo, não deixam de o aprovar em seus corações cristãos... E o novo movimento vai certamente receber, daqui, um impulso inesperado.
Que digo eu? Já recebeu.
Apenas se soube a resposta do Ministério, um bando de mancebos, em Leipzig, que se poderiam tomar por frades dominicanos mas que eram apenas filósofos estudantes, andaram expulsando os judeus das cervejarias, arrancando-lhes assim o direito individual mais caro e mais sagrado ao alemão, o direito à cerveja!
Mas donde provém este ódio ao judeu?
A Alemanha não quer, decerto, começar de novo a vingar o sangue precioso de Jesus.
Há já tanto tempo que essas coisas dolorosas se passaram!... A humanidade cristã está velha e, portanto, indulgente: em dezoito séculos esquece a afronta mais funda.
E infelizmente hoje já ninguém, ao ler os episódios da Paixão, arranca furiosamente da espada, como Clóvis, gritando, com a face em pranto: – Ah, infames! Não estar eu lá com os meus Francos!
Além disso, este movimento é organizado pela burguesia, e as classes conservadoras da Alemanha são muito jurídicas para não aprovarem, no segredo do seu pensamento, o suplício de Jesus.
Dada uma sociedade antiga e próspera, com a sua religião oficial, a sua moral oficial, a sua literatura oficial, o seu sacerdócio, o seu regime de propriedade, a sua aristocracia e o seu comercio que se há-de fazer a um inspirado, a um revolucionário, que aparece seguido de uma plebe tumultuosa, pregando a destruição dessas instituições consagradas à fundação de uma nova ordem social sobre a ruína delas e, segundo a expressão legal, «excitando o ódio dos cidadãos contra o Governo»?
Evidentemente puni-lo. Pede-o a lei, a ordem, a razão de Estado, a salvação pública e os interesses conservadores.
É justamente o que a Alemanha, com muita razão, faz aos seus socialistas, a Karl Marx e a Bebei.
Ora, estes maus homens não querem fazer na Alemanha contemporânea uma revolução, decerto, mais radical que a que Jesus empreendeu no mundo semítico.
É verdade que o Nazareno era um Deus: para nós, certamente, humanidade privilegiada, que o soubemos amar e compreender mas em Jerusalém, para o doutor do Templo, para a escriba da lei, para o mercador do bairro de David, para o proprietário das searas que ondulavam até Belém, para o centurião severo encarregado da ordem Jesus era apenas um insurrecto.
E se Bismarck estivesse de toga, no Pretório, sobre a cadeira curul de Caifás, teria assinado a sentença fatal tão serenamente como o dito Caifás, certo que nesse momento salvava a sua pátria da anarquia.
Os conservadores de Jerusalém foram lógicos e legais, como são hoje os de Berlim, de Sampetersburgo ou de Viena: no mundo antigo, como agora, havia os mesmos interesses santos a guardar.
Que diabo!, é indispensável que a sociedade se conserve nas suas largas bases tradicionais: e outrora, como hoje, a salvação da ordem e a justificação dos suplícios.
É possível que este gozo que nós hoje, conservadores, temos de triturar os messias socialistas, encarcerar os Proudhon, mandar para a Sibéria os Bakunine e crivar de multas os Félix Pyat venha a custar caro a nosso netos.
Com o andar dos tempos, todo o grande reformador social se transforma pouco a pouco em Deus: Zoroastro, Confúcio, Maomet, Jesus, são exemplos recentes!
As formas superiores do pensamento tem uma tendência fatal a tornar-se na futura lei revelada: e toda a filosofia termina, nos seus velhos dias, por ser religião.
Augusto Comte já tem altares em Londres; já se lhe reza.
E assim como hoje exigimos capelas aos santos padres, aos que foram os autores divinos, os nobres criadores do catolicismo, talvez um dia, quando o socialismo for religião do Estado, se vejam em nichos de templo, com uma lamparina de frente, as imagens dos santos padres da revolução: Proudhon de óculos. Bakunine parecendo um urso sob as suas peles russas, Karl Marx apoiado ao cajado simbólico do pastor de almas tristes.
Como a civilização caminha para o oeste, isto passar-se-á aí para o século XXVIII, na Nova Zelândia ou na Nova Austrália, quando nós, por nosso turno, formos as velhas raças do Oriente, as nossas línguas idiomas mortos, e Paris e Londres montões de colunas truncadas como hoje Palmira e Babilónia, que o zelandês e o australiano virão visitar, em balão, com bilhete de ida e volta... Logicamente, então, como são detestados hoje na Alemanha os herdeiros dos que mataram Jesus – só haverá repulsão e ódio pelos descendentes de nós outros que estamos encarcerando Bakunine, ou multando Pyat.
E como toda a religião tem um período de furor e extermínio, esses pobres netos nossos serão perseguidos, passarão ao estado de raça maldita e morrerão nos suplícios... C’est raide!
Mas voltemos à Alemanha. Ainda que o Pedro Eremita desta nova cruzada constitucional seja um sacerdote, o reverendo Streker, capelão e pregador da corte, é evidente que ela não tira a sua força da paixão religiosa.
As cinco chagas de Jesus nada têm que ver com estas petições que por toda a parte se assinam, pedindo ao Governo que não permita aos judeus adquirirem propriedades, que não sejam admitidos aos cargos públicos, e outras extravagâncias góticas!
O motivo do furor anti-semítico é simplesmente a crescente prosperidade da colónia judaica, colónia relativamente pequena, apenas composta de quatrocentos mil judeus; mas que pela sua actividade, a sua pertinácia, a sua disciplina, está fazendo uma concorrência triunfante à burguesia alemã. Tudo isto, no entanto, é a luta pela existência.
O judeu é o mais forte, o judeu triunfa.
O dever do alemão seria exercer o músculo, aguçar o intelecto, esforçar-se, puxar-se para a frente para ser, por seu turno, o mais forte.
Não o faz: em lugar disso, volta-se miseravelmente, covardemente, para o Governo e peticiona, em grandes rolos de papel, que seja expulso o judeu dos direitos civis, porque o judeu é rico, e porque o judeu é forte.
O Governo, esse, esfrega as mãos, radiante.
Os jornais ingleses não compreendem a atitude do senhor de Bismarck aprovando tacitamente o movimento antijudaico.
É fácil de perceber; é um rasgo de génio do chanceler.
Ou, pelo menos, uma prova de que lê com proveito a história da Alemanha.
Na Meia Idade, todas as vezes que o excesso dos males públicos, a peste ou a fome desesperava as populações; todas as vezes que o homem escravizado, esmagado e explorado mostrava sinais de revolta, a Igreja e o príncipe apressavam-se a dizer-lhe: «Bem vemos, tu sofres!
Mas a culpa é tua. É que o judeu matou Nosso Senhor e tu ainda não castigaste suficientemente o judeu.
A populaça então atirava-se aos judeus: degolava, assava, esquartejava, fazia-se uma grande orgia de suplícios; depois, saciada, a turba reentrava na treva da sua miséria a esperar a recompensa do Senhor.
Isto nunca falhava.
Sempre que a Igreja, que a feudalidade, se sentia ameaçada por uma plebe desesperada de canga dolorosa – desviava o golpe de si e dirigia-o contra o judeu. Quando a besta popular mostrava sede de sangue –servia-se à canalha sangue israelita.
É justamente o que faz, em proporções civilizadas, o senhor de Bismarck.
A Alemanha sofre e murmura: a prolongada crise comercial, as más colheitas, o excesso de impostos, o pesado serviço militar, a decadência industrial, tudo isto traz a classe média irritada.
O povo, que sofre mais, tem ao menos a esperança socialista; mas os conservadores começam a ver que os seus males vêm dos seus ídolos. Para o calmar e ocupar, o que mais serviria ao chanceler seria uma guerra, mas nem sempre se pode inventar uma guerra, e começa a ser grave encontrar em campo a França separada, mais forte que nunca, com os seus dois milhões de bons soldados, a sua fabulosa riqueza, riqueza inconcebível, que, como dizia há dias a Saturday Review, é um fenómeno inquietador e difícil de explicar.
Portanto, à falta de uma guerra, o príncipe de Bismarck distrai a atenção do alemão esfomeado – apontando-lhe para o judeu enriquecido.
Não alude naturalmente à morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Mas fala nos milhões do judeu e no poder da sinagoga.
E assim se explica a estranha e desastrosa declaração do Governo.”